Há algo de novo no front. Escrevo como quem se despede. Amanhã o dia estará modificado pelas próprias pessoas que partiram. Outros assumirão seus espaços. A cadeira do birô,a cabeça sobre o travesseiro na cama,os chinelos que ficaram atrás da porta.
Convém pensar que tudo é fluído. Irrepreensível é apenas a transitoriedade,tanto quanto o esplendor de certos rostos e de certos corpos.
Escrevo cada mais imbuído da certeza de que nada tenho a dizer.
Mal apagadas,algumas memórias doem. Outras,sem força,perderam ao mesmo tempo o enigma e a clareza.
Quero esquecer que já fui um dia entusiasmado pelo mundo virtual,porquanto a náusea - não a sartreana - se instalou-me sorrateira.
Tudo que se esquece serve de adubo da imaginação. Como os velhos dias de chuva da minha infância já tão antiga...
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Nota: queridos amigos,decidi retirar o muralzinho irrevogavelmente. Se não tenho mais tempo nem para Realidade... Mas deitarei a pena - sempre que inspirado - por seus amoráveis blogs quando a emoção bater plural!
A croniqueta escrita em um minuto tanto quanto neste espaço de tempo a espada pode atravessar uma maçã ou o corpo de um homem.
Motivos para este escrito,nenhum. Apenas a imagem silente de Marcel Marceau,num antigo documentário cinematográfico,exercitando a mímica.
Motivos para a vida,nenhum. A não ser o estranho brilho verde dos olhos da moça que se debruçou,nua,sobre o espelho da cama barroca,provocando o contraste de formas com sua estrutura gótica.
Motivos para a morte,nenhum. Excetuando-se somente o silêncio que se estabelece entre o mármore do túmulo e o corte cirúrgico de todas as dores e de todos os elos desagradáveis.
Vôo de pássaro,a croniqueta se estabelece na plumagem da sua própria velocidade de palavras aladas; e a finalizo - como é preciso concluir a vida,sem pungência,neste ponto que se transforma em ponto final!
Você acorda muito cedo. Chove lá fora uma chuva de agulhas. Coisas finas e obstinadas.
Você carrega muitos outros dias pluviais nas costas. Muitas memórias chuverantes. Muitos mortos amados. Eles,que agora são leves - pesam.
Chuvas não entram e nem saem da moda,como paletós de mangas arregaçadas ou ombreiras que prolongam a geometria humana,porque são habitualmente as mesmas.
Com o chuviscar cotidiano Você pode aguar os últimos corpos caídos com as balas do esquadrão da morte. Você pode umedecer o rosto da mulher que passa. Você pode regar a plantinha que teima em viver com folhas ingênuas e coração de clorofila.
A chuva cai sobre seqüestros,amores feitos e desfeitos,corrupções generalizadas,impaciências e ódios gratuitos,sonhos da última noite de um verão e a proliferação de hipocrisias.
A chuva cai também,delgada,táctil,fertilizando as grandes amizades ou a redescoberta desse amplo sentimento humano cada vez mais raro.