O repórter fotográfico é o olho da imprensa na era visual. O apoio da palavra. A muleta da meia palavra.
Somente ele pode flagrar aquela criança correndo dentro do labirinto de conflitos na Ásia. A menina estava incediada pelo napalm. A imagem virou a memória do mundo.
Tanto quanto no Brasil o flash de pernas trocadas de Jânio Quadros é a lembrança do país bêbado. De um porre que dura muitos anos.
"Esmurram o nariz,o sangue espirra. Grito do delator: 'Não'..." Esta cena,que Marguerite Duras descreve em "A Dor",não foi surpreendida pelo repórter fotográfico porque não o havia. Basta este exemplo para se ter uma idéia de como ele é importante. Dos muitos Cartier-Bresson reconhecidos ou anônimos.
Lembram-se de quando Wang Wellin parou no peito e na raça a coluna de blindados na Praça da Paz Celestial? Ele estava parando um pouco o arbítrio e a violência do mundo.
O repórter fotográfico foi o alter ego de Wang Wellin. De repente,os dois eram um só.
Um enfrentando os carros-de-combate de peito aberto. O outro,irmão intemporal de Wellin,enfretando os tanques com o diafragma aberto da câmera!
A croniqueta escrita em um minuto tanto quanto neste espaço de tempo a espada pode atravessar uma maçã ou o corpo de um homem.
Motivos para este escrito,nenhum. Apenas a imagem silente de Marcel Marceau,num antigo documentário cinematográfico,exercitando a mímica.
Motivos para a vida,nenhum. A não ser o estranho brilho verde dos olhos da moça que se debruçou,nua,sobre o espelho da cama barroca,provocando o contraste de formas com sua estrutura gótica.
Motivos para a morte,nenhum. Excetuando-se somente o silêncio que se estabelece entre o mármore do túmulo e o corte cirúrgico de todas as dores e de todos os elos desagradáveis.
Vôo de pássaro,a croniqueta se estabelece na plumagem da sua própria velocidade de palavras aladas; e a finalizo - como é preciso concluir a vida,sem pungência,neste ponto que se transforma em ponto final!
Você acorda muito cedo. Chove lá fora uma chuva de agulhas. Coisas finas e obstinadas.
Você carrega muitos outros dias pluviais nas costas. Muitas memórias chuverantes. Muitos mortos amados. Eles,que agora são leves - pesam.
Chuvas não entram e nem saem da moda,como paletós de mangas arregaçadas ou ombreiras que prolongam a geometria humana,porque são habitualmente as mesmas.
Com o chuviscar cotidiano Você pode aguar os últimos corpos caídos com as balas do esquadrão da morte. Você pode umedecer o rosto da mulher que passa. Você pode regar a plantinha que teima em viver com folhas ingênuas e coração de clorofila.
A chuva cai sobre seqüestros,amores feitos e desfeitos,corrupções generalizadas,impaciências e ódios gratuitos,sonhos da última noite de um verão e a proliferação de hipocrisias.
A chuva cai também,delgada,táctil,fertilizando as grandes amizades ou a redescoberta desse amplo sentimento humano cada vez mais raro.
Proclamo a loucura dos dias tanto quanto um médico diagnostica a insanidade mental num paciente. Avoluma-se os distúrbios. Os motivos são múltiplos: o avantajado desrespeito humano,a galopante violência,o melancólico festival de cinismo dos políticos...
Todos se tornam defensivos antes da fala dos ministros na TV. Eles sobrevivem,semelhante à Bia Falcão na "Belíssima". Os ministros vomitam as próprias indecisões administrativas.
Promulgo a imprudência cotidiana neste início do segundo semestre de 2006,em que percorro todas as veredas da minha dor pessoal e intransferível.
Interrogo-mo sobre o sentido da vida - meu leit motif - e sobre a pele em claro-e-escuro dos tigres.
Agora estou aqui,às bordas das festas juninas,observando a ostensiva neurose coletiva e tramando minha inútil indignação...